A jornalista Malu Fontes tem uma expressão chamada “Projeto Ribanceira” para denominar a falta de perspectiva futura em diversos setores da sociedade. A educação brasileira está definitavamente na beira do precipício prestes a se jogar.
O Brasil tem sido bastante elogiado pela imprensa internacional devido ao seu crescimento econômico, mas tem desafios, principalmente, em saúde e educação. Boa parte da nossa população pobre não tem acesso a educação básica de qualidade e até escolas da classe média estão com notas abaixo nas avaliações do Enem. O método das escolas particulares, que custam e muito aos pais, está apenas focado no mercado de trabalho e vestibular. Boa parte do ensino básico particular não está interessado em formar alunos que decidam suas carreiras baseadas nas aptidões pessoais e sim em preparar máquinas de “fazer dinheiro” no futuro próximo. O que importa ‘apenas’ é ser um sucesso, mesmo que isso custe anos de felicidade aparente.
Recentemente, o coordenador do curso da Ufba disse que o QI do Baiano justifivava a nota menor da Escola de Medicina mais antiga do Brasil. Infelizmente, a discussão foi desviada para as declarações do professor e não para a deprimente formação dos novos médicos da universidade. O atendimento dos hospitais-escola estão ruins e está ocorrendo um aumento no número de médicos especialistas em cirurgia plástica. Então, há mais médicos interessados em beleza do que em saúde pública. Os motivos? Bem, remuneração e status social.
Na educação superior há crises por todos os lados, tanto na universidade pública quanto a particular. Diversas faculdades particulares prometem um ensino rápido e de qualidade, todavia, nós temos um alunado apático que apenas quer ‘frequentar’ um ensino superior como garantia de emprego no mercado de trabalho. Entretanto, muitos falam que o terceiro grau virou o ensino médio pelo fato de universitários estarem em trabalhos que exigem pouca qualificação, consequentemente baixa remuneração, como telemarketing. A culpa? Todos são culpados, pois as universidades não são incumbadoras de idéias e preferem formar empregados para um mercado saturado de profissionais.
As poucas faculdades particulares que ainda são boas estão oferecendo vagas para alunos pobres e surpreendentemente estão mantendo a qualidade do ensino. Alunos pagantes e interessados, os alunos do Prouni e outros bolsistas dos programas de incentivo, se dispõem a fazer provas como o Enade e obtém o desepenho alto. Principalmente, por obterem conhecimento fora da instituição. Ficar preso ao currículo acadêmico limita o conhecimento do aluno e não o prepara para o mercado. Nem questiono o polêmico e necessário sistema de cotas, mas já existe um movimento contra as bolsas do Programa Universidade para Todos que beneficia uma minoria negra e uma maioria não-negra. Conheço diversos alunos pobres e não-negros estudando Direito e cursos da área de saúde, pois não tem condição de pagar mais de mil reais por mês. Então, não há exclusão em ambos os sistemas. Está equilibrado.
Infelizmente, quem consegue uma vaga no Prouni são alunos das poucas e boas escolas públicas ou aqueles que fazem cursinho preparatório para o Enem ou o vestibular paralelamente ao ensino da escola. É um desafio, pois além de estudarem para o complexo conteúdo pré-universitário devem superar os problemas adquiridos no ensino público dos anos anteriores. Com relação ao desepenho das faculdades particulares, será que elas irão ceder? Pois os alunos bolsistas garantiram as melhores notas nas avaliações do Enade dos últimos anos e elevaram o conceito de diversos cursos. Talvez exista uma ‘má vontade’ de encarar o sucesso do programa, já que foi implantado pela gestão de Lula. O que contribui e muito para a visão de ser apenas mais um programa eleitoreiro.
Já as universidades públicas são verdadeiras caixas-pretas, inclusive, no que diz respeito as pesquisas universitárias que não tem aplicação efetiva na sociedade. Na gestão Lula estorou o problema da Universidade de Brasília, contudo, a crise já vinha se arrastando em gestões anteriores. O que contribui para o agravamento da crise é a não melhoria do ensino básico. O ensino superior ainda está na mão daqueles que tem condições bem melhores que a maioria, inclusive, negra. E questiono se o Brasil ainda será o país do futuro ou o do projeto ribanceira. Só o tempo e o investimento dirá.
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